A lenda dos “Ride Bells”, os Sinos Guardiões

Ride Bell

Como já falei aqui, ando de moto há muitos anos, mas sempre fui meio que um cavaleiro solitário, nunca me liguei muito em moto clubes ou participei de encontros. Talvez por isso, só ontem fiquei sabendo sobre os ride bells, gremlin bells ou, como são conhecidos em português, os sinos guardiões.

Estava em um evento na casa de uns amigos, com direito a food truck Corujinha, cerveja Fusbier e vários DJs tocando no gramado em frente à casa. Esticamos uma canga e sentamos bem ao lado de uma Triumph Thruxton impecável de limpa. Fiquei olhando pra ela um tempo, reparando das customizações que o dono fez, a retirada do paralama traseiro, a fita que envolvia o escapamento, tudo de muito bom gosto. Foi aí que reparei em um pequeno sino preso a essa fita e achei muito interessante o detalhe.

A bela Thruxton do MatheusAlguns minutos depois, duas pessoas se aproximaram e começaram a falar sobre a moto, apontando um detalhe ali, a nova posição das setas traseiras, da placa… Achei que um deles poderia ser o dono e aproximei-me. E era, dei-lhe os parabéns pela moto e perguntei sobre o sino.

O Matheus me explicou que é um sino de proteção, que tem como função espantar os pequenos demônios que ficam à beira da estrada e pulam na sua moto quando você passa. O barulho que o sino faz com a vibração da moto parece incomodar esses demônios, eles não aguentam e pulam fora.

Ainda de acordo com o Matheus, para que o sino tenha o poder de proteção, ele tem que ser dado a você por outra pessoa, não pode ser comprado.

Chegando em casa fui pesquisar um pouco mais sobre o sino guardião e encontrei a seguinte descrição para a possível origem dessa tradição:

Reza a lenda que certa noite, um motoqueiro solitário voltava do México com os alforges carregados de brinquedos para doar a um orfanato perto de sua casa. Era uma noite fria nos desertos ao norte da fronteira e ao longo do caminho ele ia pensando sobre suas jornadas do passado junto com amigos há muito perdidos e em muitas noites exatamente como aquela passadas sobre o banco da moto.

Lá pelas tantas, ele pensou ter visto algo na estrada, no feixe de luz do farol, andou um pouco mais e viu novamente, eram pequenas criaturas que passavam pelo feixe do farol rápidas como vento, pequenos espíritos meio translúcidos na luz do luar – eram os Gremlins do Asfalto. Antes que ele pudesse fazer qualquer coisa eles estavam em sua moto, ele freou bruscamente, perdeu o controle e caiu.

Quando recobrou a consciência, ele estava a uns 10 metros de sua moto, um dos alforges havia se desprendido da moto e estava no chão, a seu lado. Com a luz do luar ele pode ver a moto caída e os gremlins dançando sobre ela. Ele apoio-se nos cotovelos, e levantou a cabeça para vê-los melhor. Eles o viram se mexendo e começaram a caminhar lentamente em sua direção, com um ar de curiosidade. O motoqueiro puxou o alforge para perto e começou a sacudí-lo na tentativa de espantar aqueles pequenos demônios. Um leve tintilar ressoou de dentro do alforge, e aquele barulinho pareceu incomodar muito os gremlins, cada vez que a bolsa era sacudida eles tampavam os ouvidos e recuavam.

Ele abriu a bolsa, tirou os sinos de dentro e começou a balançá-los intensamente. Os gremlins recuaram e desapareceram na escuridão.

Como mariposas atraídas por uma chama, duas luzes apareceram na escuridão, eram duas motos que para o velho motoqueiro caído no chão, pareciam mais anjos vindo em sua direção atraídos pelo tintilar dos sinos. Eles o ajudaram a levantar e a recolher suas coisas, montaram acampamento e conversaram por longas horas sobre os gremlins e outras histórias da estrada. O velho ofereceu-lhes dinheiro pela ajuda, mas como manda a tradição das estradas, eles não aceitaram.

Na manhã seguinte, acordaram e despediram-se, o velho mais uma vez, ofereceu-lhes dinheiro, mas eles novamente recusaram. Suspeitando que isso fosse acontecer, antes do amanhecer ele havia amarrado dois sinos, um em cada uma das motos dos anjos motoqueiros. Enquanto o velho observava os dois indo embora ele podia ouvir o tintilar dos sinos misturando-se ao som dos motores. Nenhum espírito traquineiro iria incomodar aqueles dois.

Há muitas variações dessa lenda, não importa como você a conte a moral permanece a mesma, proteção é oferecida na generosidade entre amigos, ou como atos aleatórios de irmandade na estrada. O espírito de camaradagem entre motoqueiros é o que o Sino Guardião representa.

 

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4 Comentários


  1. Vale difundir caro PHE. Inclusive a camaradagem entre todos os humanos daqui!!!!Abrs.

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